Railton Teixeira Da Silva – mais1.dasilva.jornalista@gmail.com

- Algumas palavras a título de introdução
O que seguira nas próximas linhas são as narrativas de Pai Joao. Elas foram apanhadas em uma tarde de conversa no Ilê Axé Oloye Oyo, na periferia de Maceió. A fala foi minunciosamente transcrita com o carinho e a atenção de quem as ouve com muito cuidado e as compartilha neste suplemento semanal como carta. Lembrar é antes de mais nada um ato humano, pois estamos o tempo todo lembrando e lembrar é refazer um passado já vivido. Nesta feita, o narrador traz em suas lembranças os saberes e os costumes de uma prática mantida há gerações no seio de sua família.
Dos 36 anos de vida, Pai João tem dedicados ao culto ancestral mais de 20. Desde criança ele participa com a família de giras, festas, obrigações e oros, mas o seu ponta pé foi aos 14 anos de idade quando fez o processo de iniciação no candomblé. A sua feitura no Orixá e o tombo na Jurema foi ministrada pelo seu tio, conhecido como Mazinho, que hoje é seu ancestral. E assim Pai João segue os caminhos que, segundo ele, foram traçados por Olodumare, o Deus supremo, e por Tupã desde o início de sua trajetória para chegar nesta vida terrena. E é usando o cachimbo, o maracá, o ilú, os búzios que invoca, louva e mantém uma comunicação com aqueles que já não se encontram aqui nesse plano.
Esta é mais uma prática cultural popular da periferia de Maceió que trago como oportunidade de diálogo. A tentativa é apresentar elementos pouco falado, mas que pertence a um culto rico em costumes e tradições de uma cidade profunda. E, claro, que nesta ocasião, não poderia perder a oportunidade de trazer a fala de um sacerdote que no Conjunto Paulo Bandeira age na salvaguarda deste patrimônio intangível na contramão do esquecimento. Pai João é um mestre da cultura popular que apesar de jovem já carrega a responsabilidade de manter viva a herança ancestral herdada dos Fulni-ô e dos Iorubás.
E aqui quero deixar claro que existem dívidas para com os descendentes dos negros sequestrados de África e com os descendentes dos indígenas que nunca serão sanadas, tão pouco reparadas. Dívidas essas que deixaram cicatrizes e ainda hoje são bem visíveis no retrovisor da história, mas não a história oficial e sim aquela que é escrita com os pés no chão, aquela que tem em cada ruga dos rostos de pessoas comuns e anônimas uma marca muito peculiar do tempo presente e de um tempo passado já vivido que não volta mais. Um tempo que é só lembrado.
Não poderia deixar de aproveitar a oportunidade e trazer algumas notas pessoais sobre as manifestações religiosas do candomblé e do Catimbó Jurema. É importante deixar bem claro que o candomblé e a Jurema são religiões brasileiras. Cada uma com suas particularidades e ritualísticas próprias. Diferente da mesa branca, e, aqui chamo atenção para o termo propagado quando se refere ao Espiritismo de Alan Kardec. Mas o culto aos orixás e a egungun, e, aos encantados no Catimbó Jurema ocorrem de maneiras bem distintas e cada uma conserva e preserva os costumes que são rurais, e, mesmo no urbano encontraram uma forma de existir e escrever sua própria história. A título de informação, gostaria de explicar o que seria Egungun, até mesmo para não pairar dúvidas. Mas, a palavra é Ioruba, como muitas apresentadas aqui, e significa Ancestral.
O Candomblé é a resistência de pessoas que foram retiradas a base da violência de África e foram submetidos a escravidão aqui no Brasil. Vários povos do continente africano foram dizimados pelos europeus. Muitas dessas pessoas sequestradas trouxeram para o Brasil as culturas bantos, jeje, nagos, hauças, malês e outros povos. Várias foram as resistências encontradas, entre elas a barreira da comunicação, pois não se colocavam pessoas negras escravizadas de mesma nacionalidade juntas. E claro, aqui foram proibidos de praticar qualquer prática cultural ou religiosa.
E a resistência tem uma particularidade muito especial. E foi essa resistência de querer cultuar suas divindades, seja ela os orixás, os nkisis e os voduns, que se usou os elementos do catolicismo para manter vivo o seu culto. Desta forma, encontramos em templos de candomblé imagens de santos a exemplo de São Jorge, Imaculada Conceição, Santa Barbara, São Jerônimo, Santo Antônio e outros santos populares que lhes eram possíveis render devoção e não mostrar para o colonizador que estava indo de encontrar as ordens previamente estabelecidas. Mesmo assim a perseguição sempre foi forte e os praticantes enfrentaram os horrores de tentar resistir.
E esse processo não foi diferente com o Catimbó Jurema. E antes de mais nada é preciso deixar claro que a Jurema praticada pelos indígenas nos seus rituais sagrados e secretos é totalmente diferente da manifestação na cidade. Os indígenas não abrem os seus segredos e não permitem que conhecimento do saber fazer dos seus cultos cheguem na floresta de concreto. Mas, mesmo assim, há uma troca de elementos culturais entre os indígenas e os praticantes da Jurema no urbano.
Porém, o Catimbó Jurema chega nas cidades, principalmente nas capitais do nordeste, com os indígenas que saíram dos seus aldeamentos e vieram para os grandes centros urbanos, especialmente apara as capitais do Nordeste. Como não poderia ser diferente, o tempo se encarrega de promover as rupturas e os avanços necessários para as tradições populares. O Catimbó Jurema além do berço indígena tem a força espiritual dos Mestres que são a segunda coluna do rito. Além disso foram agregados ao culto o Preto Velho e as senhoras Mestra.
Pai João nos permite conhecer um pouco sobre ancestralidade. Claro que não é um material que elucide todas as inquietações sobre o tema, mas a bem dizer é uma introdução que nos permitirá ter um entendimento sobre. Então vamos as suas narrativas…
2. Narrativa de Pai João

2.1. O culto a ancestralidade
Sou pai João, sacerdote do Ilê Axé Oloye Oyo, juremeiro e babalorixá.
E o que é ancestralidade para nós que somos do culto ao Candomblé e a Jurema? São os nossos antepassados que trouxeram todo ensinamento da terra, de folhas, de comidas, de rezas de benzedeira. São aqueles que estão ao nosso lado espiritual, para nos trazer o conhecimento e o discernimento. Aquilo que eles deixaram em terra, nos é dando e aquilo que eles ainda têm a nos oferecer e a nos ensinar. Isso são os nossos ancestrais. Indígenas, negros, mulatos, cafuzos, caboclos, são aqueles que nos iluminam e nos mostra os caminhos.
O culto a Jurema é um culto ancestral. O culto ao orixá é um culto ancestral. Que através deles nós entendemos o ato da folha, o que era o ato das ervas, o que é um ato dos animais, o que é o ato de comer.
O que nos conecta a ancestralidade é a folha, é a raiz. Dentro do culto ao orixá tem a folha, por exemplo, se tem o dito “ko si ewe, ko si orixa”, sem folha não há orixá. E dentro da Jurema Santa Sagrada, as raízes, as árvores, as frutas.
Antigamente, nós tínhamos uma quantidade muito grande de animais, sendo utilizados para sacrifício. Seja ele africano ou indígena. Isso porque a comunidade precisava se alimentar. O terreiro, que viviam em comunidades tradicionais, hoje não se tem mais esses sítios, viviam sempre juntos. Mas, antigamente há 20, 30, 40 anos atrás nós tínhamos comunidades então era necessário alimentar a comunidade. A partir dai eram vários cabritos, vários galos, eram várias galinhas. Uma quantidade de animais que conseguisse absorver aquela gente e dai surgia a festa.
Que esses animais são rezados, purificados para que nós possamos comer uma carne e que não tenhamos o resquício da energia negativa que nós temos dentro dos abatedouros, de granjas, onde só se pensam no animal como em um comércio. Na verdade o animal é respeitado pela nossa matriz religiosa.
Tem uma ligação muito forte dos nossos ancestrais com o plantio, com as construções, com a criação de animais. No plantio eles nos ensinam em que horas e como devemos. Como plantar o milho em data que antecede o São João. Se planta três meses antes para se colher em junho. Foi-se passado por um antepassado. Como vai se fazer uma cerca para se dividir o gado? Como vai plantar uma mandioca, uma macaxeira? O ato de se fazer a farinha? Como se faz uma farinha? Como se constrói um moinho para fazer a farinha? Como se queima a farinha?
Tanto no plantio quanto na colheita esses ensinamentos são passados de pai para filho, da forma como se faz. Quando se tem um animal doente, se reza ele, se defuma ele, se faz um banho com as ervas especificas e da um banho no animal, para se tirar uma energia negativa ou um ferimento. Quem nos ensinou que o juá é bom para ferida? Os nossos ancestrais. Ele pega o juá, bate aquela pasta, fica aquela espuma, coloca no ferimento do animal e fecha. Quem nos ensinou que o Melão de São Caetano é bom para da banho em animais domésticos como gato, cachorro? Nossos Ancestrais. Quem nos ensinou que o boldo é bom para o estômago? Nossos ancestrais.

O ato da gente plantar um inhame e colher desse inhame. Tem casa de candomblé que eles fazem rituais. Eles fazem o plantio do inhame e quando o inhame esta pronto eles fazem o sacrifício do inhame, pilam no pilão, fazem a festa do inhame para poder ofertar a ancestralidade e após isso comer. Porque o inhame foi abençoado, para falar uma linhagem que as pessoas entendam, mas ele foi abençoado para que aquela pessoa possa se alimentar e o orixá possa vim a pairar sobre o corpo da pessoa, para que o orixá possa vim a abençoar e a fortalecer. E as cabeças daqueles inhames serão novamente plantados para no ano que vem eles poderem colher novamente e poderem retirar da terra e oferecer para o orixá.
Os índios nos ensinaram a cultivar. As pessoas pensam que o índio é só caça, só caça, que só ia atrás da caça. Eles iam atrás da caça, mas ele respeitavam tanto a natureza. Por isso nós respeitamos tanto a natureza. Nós não destratamos o animal, o animal não pode sofrer. O ato do sacrifício é o ato onde o animal não pode sofrer. Se o animal sofrer, a nossa própria ancestralidade discorda. O índio da mesma forma, ele ia a caça, dias após dias na caça, ele flechava um animal, ele metia a lança num animal para pescar, fazia uma armadilha para pegar o animal, aquele animal era entregue a natureza. Já que é a natureza que da o alimento, que permite que a caça venha até eles. Eles sacrificavam o animal, ali mesmo naquele solo sagrado, para que animal não sofresse.
Se aquele animal sofresse eles seriam penalizados pela natureza que não traria novamente uma caça para que eles pudessem se alimentar. E os próprios ancestrais deles ensinaram isso a eles. Então eles fazendo a caça de forma justa e respeitosa para a natureza, a natureza iria trazer mais coisas para eles. E o ato do cultivo da macaxeira, do inhame, da batata, frutas, as ervas que eram utilizadas como remédios. Uma coisa que a gente deveria fazer hoje para se ter remédio, medicamento. Por exemplo, tem pessoas que sofrem muito com sinusite, a quina-quina. A gente pode cheirar o vapor da quina-quina para curar a sinusite. Mas, os índios lhe davam com o ato da plantação para alimento do corpo e do seu espirito.
Na jurema, a ideia de ancestralidade eles trazem no sacrifício ou no ato do transe com bebida da Jurema. O ato do transe com a jurema e o ato de se ligar com os ancestrais debaixo da sombra da árvore sagrada. Isso faz com que você seja levado ate a cidade onde o seu ancestral mora, onde seu pajé, seu cacique que partiu, seu familiar moram. Se a gente prestar atenção, toda essa ritualística, seja ela da jurema ou do orixá os atos religiosos nos levam até onde os nossos ancestrais estão.
E é esse o ato da gente ir lá, sentir eles mais de perto, através da natureza. Senti-los mais de perto através do elo de ligação do cântico que eles gostavam, do cântico que eles mais amavam. O ato de colocar as comida que eles gostavam, para poder sentir eles perto, para trazer de volta, para poder fazer esse elo de ligação entre céu e a terra, para eles poderem vim até onde nós estamos. Não é que a gente vai puxar eles, mas colocamos lá e trazemos eles e poderem se fazer presentes entre nós e a partir dai eles nos ensinar.
Para se ter ideia, nesse cunho, um mestre de jurema é um ancestral, uma mestra de jurema é uma ancestral. Não é só o índio, o preto velho também o é e os orixás.
Hoje nós temos dificuldades de encontrar as arvores sagradas e dificuldades principalmente com a sociedade.
Temos a dificuldade de encontrar as árvores sagradas. Moro em volta de uma mata, mas tenho um espaço delimitado. A ideia não é construir, invadir a mata, a ideia é preservar, ter a mata para se fazer o culto.
Ter um pé de Jurema aqui dentro para se ter mantida viva a tradição é importante. O que acontece é que antigamente os catimbozeiros eles iam até a mata para render homenagens a herança ancestral indígena, a seus metres. Mas, devido a urbanização eles tiveram que trazer esse culto para a cidade e cada vez mais foi ficando escasso o angico, o juça, a peroba, o manacá, o catucá. As arvores cujo qual são representativas. Representação sagrada para nós juremeiros.
Nós tivemos que fazer troncos e trazer para as cidades para poder colocar dentro dos nossos barracões, porque se não, não conseguiríamos cultuar devido a esse desmatamento desacerbado que nós temos hoje. Essa mata que fica aqui no Conjunto Paulo Bandeira acabará se tornando daqui a alguns anos uma grota, devido a questão de desigualdade social, mas ela se tornará uma grota e assim se acabando.
Quantos e quantos mestres de Jurema tiveram seus troncos arrancados. Quando se nasce na Jurema, se planta uma árvore, se tem uma arvore sagrada. E a partir dai foram arrancados os pés de Jurema. A árvore que o meu juremeiro foi iniciado não existe mais. E com uma jurema na casa se torna um patrimônio da casa. Essa daqui não se arranca mais, mas quanto outros já não se perderam?
O ato de termos que ir até a mata nos dificulta muito, principalmente nas questões sociais, não se tem um veículo para ir ate a mata, para se chegar ate lá. Todo as matas são distantes, acaba indo se buscar em lugares muito longe e quando a gente sai com animais e vai até a mata, existe a retaliação social, existe a opressão do vizinho evangélico, existe a opressão do estado, a policia. Se o nosso atabaque esta alto, tem um vizinho que liga para a policia para vim buscar.
Os terreiros tem que ter horário. Se o ilú esta sendo tocado muito alto, se os tambores estão sendo tocados muito altos, vem retaliar, até levarem os atabaques. Até acabar com o nosso ritual. A liberdade religiosa na realidade ela existe para religião de branco e para padrões sociais mais altos. Os terreiros pelos quais estão em Maceió não estão nos bairros nobres, diferente dos cristãos, eles não sofrem a mesma retaliação.
Então, essa dificuldade que temos de encontrar a arvore e mesmo que não encontre, mas irmos até a mata, pois se a gente for paramentados, nós somos apedrejados. Os olhares que lançam sobre nós, olhares de repugno, de desprezo. É contra isso que a gente luta todo dia, para que isso não aconteça.
Existe um risco eminente da religião acabar. Do culto em sua raiz acabar. Porque queira quer não aqueles que primam pela sua família de jurema esta sendo banalizada de forma gritante. Esta sendo implementado coisas que não condiz com a realidade das famílias de Jurema, como por exemplo abrir a boca para dizer que sem o cristianismo não existiria a jurema. Eu, discordo completamente. Porque a Jurema é matriz indígena. O mestre tem seu berço católico porque a única coisa que se tinham no tempo deles era a fé. Porque a comida era escassa e quando se tinha o sacrifício era festa.
A comida era escassa, a doença andava solta, mas eles tinham o remédio da terra para poder se tratar. As suas rezas, suas bençãos e o catolicismo ele veio para dentro da jurema por causa dos mestres. Eu coloco os metres porque é um dos maiores pesos da jurema: o índio e o mestre. A mestra também, mas o peso da jurema é o índio e o mestre.
Quando o catolicismo entre nele, o catolicismo tenta deturpar o índio. É onde aparece os caboclos. Nos temos a pajelança, nós temos o toré e não é questão de purismo, mas é a questão de se manter a essência de uma raiz. Sem o catolicismo nós teríamos os mestres, pois a urbanização iria chegar em algum momento, mas não seriam católicos, seriam mestres, mas não seriam católicos.

