Notas de um sobrevivente: uma reflexão preliminar sobre o processo de viver e morrer na grota – PARTE 1: O Eu e a Grota I

Railton Teixeira da Silva (mais1.dasilva.jornalista@gmail.com – mais1dasilva.com.br)

Em memória de Robson Teixeira da Silva, assassinado em 2018.

Créditos: SILVA, R.T. Notas de um sobrevivente: uma reflexão preliminar sobre o processo de viver e morrer na grota – PARTE 1: O Eu e a Grota I. O Dia Alagoas, Maceió, 02 a 08 de junho de 2024. Caderno Campus, p. 1-4.

1.     Introdução

O texto, que agora compartilho, é o resultado de uma profunda reflexão promovida, ou melhor, provocada a partir de uma bibliográfica obrigatória indicada por uma comissão de professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela Universidade Federal de Alagoas (PPGAS/UFAL) para a seleção de aluno regular para o período 2024/2025. A lista contempla seis textos (GLUCKMAN, 2010; GEERTZ, 2008; LÉVI-STRAUSS, 2003; MBEMBE, 2016; MONTEIRO, 1986; SPIVAK, 2010) e foi disponibilizada para a confecção e a escrita de um ensaio teórico.

Após o ingresso no programa e com o andamento das primeiras aulas, senti a necessidade de publicar esse texto e trazer algumas notas, a título de reflexão, para um número maior de pessoas. O ensaio teórico foi bem aceito pela banca de avaliação do PPGAS/UFAL o que me levou a dedicar uma atenção especial para o seu conteúdo que, antes de mais nada, tem o caráter pessoal e reflete a minha realidade escrita no chão da Grota do Cigano.

O presente texto sofreu algumas modificações a fim de publicação. Isso por entender que a discussão precisava ser ampliada, inclusive para trazer a luz elementos que faltaram no material original. Inúmeras foram as razões para a falta, mas entre elas foi o pouco espaço para discutir uma problemática que considero tão complexa e com poucos materiais de pesquisa publicados sobre as grotas, em especial a do Cigano, para dialogar em um espaço delimitado e estipulado pela banca de seleção que foi 450 palavras.

Tomei pela importância em trazer uma fala de dentro da Grota do Cigano antes de toda a discussão e embasamento teórico. Então considerei a necessidade de dividir o material em três partes: 1. O eu e a grota I e II; 2. Sobrevivência e o fazer jornalismo; 3. Notas de uma discussão teórica.

O que nesta primeira parte trago é uma reflexão, a bem dizer, são as lembranças de um período em que se manter vivo na Grota do Cigano era a minha preocupação diária. Além da busca por estratégias para garantir o alimento, ou como costumamos dizer, o pão na mesa. Assim, precisava encontrar meios para enfrentar uma situação que sempre vi como de guerra.

Estou falando que desde que me entendo por gente presenciei bem de perto a vida e a morte caminharem de mãos dadas e que era preciso, desde criança, encontrar estratégias de sobrevivência para não virar mais um morto estampado nas matérias jornalísticas, ou, objeto de estudo nas universidades e centros de pesquisas. Para não esquecer não queria ser mais um número para as estatísticas oficiais do estado, muito menos mais um personagem de uma matéria que alimentaria o contador de homicídios da agência de notícias Alagoas24horas.

Esta primeira parte, ‘O eu e a Grota’ será um diálogo, do que lembro, do meu tempo na Grota do Cigano, no recorte temporal voltado a última década do milênio, ou seja, 1990. Não fugindo da proposta do ensaio teórico, os elementos da discussão serão abordados diante da minha ‘escrevivência’, se assim posso parafrasear Conceição Evaristo. Mas, o texto é uma abordagem sobre a violência de uma forma que ainda não cheguei a falar.  

Pode até parecer um discurso violento, mas talvez assim o seja até mesmo por entender que as falas de pessoas comuns e anônimas que estão escondidas nos mais profundos grotões, inclusive a minha, precisam ser publicadas, lidas, ouvidas e discutidas. E da mesma forma que foram narradas. Tem que ser as nossas próprias falas sobre a Grota do Cigano que precisam ser ecoadas, rompendo com o silêncio.

2. O eu e a Grota I

As lembranças que tenho da infância remontam para a Grota do Cigano. Fruteiras, terrenos e poucas casas. Lugar por onde ando hoje em dia e chego a ter estranheza e, ao mesmo tempo, consigo enxergar diante de mim toda uma dinâmica que ocorreu ao longo das décadas. Nos tempos em que escrevo este texto é visível as modificações no cenário. Poucas ou quase nenhuma árvore e descendo ladeira abaixo apenas um terreno resiste ao avanço da necessidade de construção. Ele que fica pouco depois da Igreja Assembleia de Deus, quase que em frente a escolinha Coração de Mãe.

Durante décadas, vi quase que diariamente pessoas chegarem e saírem da grota. Vi pessoas, nascer e morrer. E a música ‘Encontros e Despedidas’ sempre me fez recordar essa cena. Muitos carrinhos de casco de geladeira, carroças puxadas por cavalos desciam a ladeira da grota trazendo mudas e tudo aquilo que essas pessoas tinham adquirido ao longo da vida, com muito esforço e suor. Muitas das vezes apenas uma cama, uma geladeira, um móvel para guardar as roupas e outras coisas.

Vi muitas pessoas que também traziam apenas uma sacola de supermercado e nelas não apenas suas roupas, mas toda uma história, sonhos, força de vontade para recomeçar, o desejo de continuar e seguir em frente, até mesmo iniciar tudo do zero. Também era tudo que tinham, para a vida e para a morte. Ouvi muitos dizer, que essas pessoas estavam puxando a cachorrinha.

Foi pelas ruas da Grota do Cigano, onde vi várias histórias iniciar e terminar. Muitas histórias de vida serem interrompidas de forma natural, ou, de forma violenta; e isso sem naturalizar o que diariamente acontecia, mas para todos os efeitos, sou mais um dos sobreviventes do maior genocídio e extermínio da população negra e periférica que assombrou as quebradas durante as duas primeiras décadas dos anos 2000 em Alagoas.

Foi durante esse período que estive entre o ‘cotidiano militarizado’ e as ‘máquinas de guerras’ (Mbembe, 2016) e, como subalternos, não podíamos falar, muito menos tínhamos representatividade (Spivac, 2010). Essa discussão será promovida na terceira parte deste texto.

Ouso dizer que o espectro da morte ainda continua a nos rondar atualmente. Costumo me apresentar como ‘Mais 1 Da Silva’, ou seja, mais um sobrevivente das grotas de Maceió, e assim como muitas pessoas que estão e são anônimas e que escrevem suas histórias de vida e sobrevivência ao longo das periferias e quebradas, não apenas de Alagoas, mas de uma América Latina.

A leitura de mundo que faço é a leitura por meio das representações de situações concretas, que para Freire (1987), “possibilitava aos grupos populares uma “leitura” da “leitura” anterior do mundo, antes da leitura da palavra”. Para não ficar confuso, sempre me acostumei a fazer uma leitura do que acontecia e acontece ao meu redor, observando sempre a sua dinâmica. Essa leitura de mundo tenho desde criança quando na Comunidade Nossa Senhora de Fátima tive os primeiros contatos com a Teologia da Libertação, promovida inicialmente pela ir. Rita e pouco depois pelo padre Manoel José.

Sou filho natural da Grota do Cigano. E com isso quero dizer que sou das quebradas da grande Maceió, e, como já diziam os mais velhos, nascido e criado. É um território dentro de uma cidade que muitas das vezes parece fora da cidade, salvo quando o seu nome é estampado nas páginas policiais ou exibidos na televisão, em casos relacionados a pasta da segurança pública. Ainda carrego viva em minhas memórias muitas lembranças do meu tempo e daqueles que foram tombados.

Morei uma boa parte da minha vida nesta grota. Sou fruto do encontro de duas pessoas que passaram pelo êxodo rural. De um lado meu pai, Manoel Ferreira da Silva, natural do agreste pernambucano, da cidade de Correntes, e, minha mãe Ivanilda Teixeira da Silva. Ela da zona da mata alagoana, mais precisamente da cidade de União dos Palmares. Eles se conheceram em Maceió, constituíram família e passaram a morar lá pelos idos de 1985 na Rua Amaro Feitosa, na Grota do Cigano.

Mas, antes de iniciar a nossa conversa, gostaria de destacar que a Grota do Cigano é um vale profundo que fica geograficamente localizado entre os bairros do Jacintinho e Mangabeiras. O local tem muitas escadarias laterais que dão acesso a grota. Para se ter noção, para quem segue no fluxo da ladeira em direção ao mar, a sua direita estão as escadarias que dão acesso a Rua Santo Antônio, no lado da feirinha, e, pelo lado esquerdo a Rua São Domingos.

Segundo os moradores mais velhos, o nome do local se deu pela existência de um grupo de Ciganos que até os idos de 1990 ocuparam a região que antes era uma área de mata (Silva, 2023b). A grota foi povoada por pessoas que passaram a ocupar o local e até mesmo por aquelas que procuravam “lotes baratos” (Almeida e Silva, 2023a).

Essas pessoas, sua grande maioria, vieram da zona rural de Alagoas, do agreste pernambucano e de outros locais. Almeida e Silva (2015) fazem uma leitura do processo de ocupação da periferia na capital. Eles chegam a destacar que o atual perfil populacional da grande Maceió, em especial a sua periferia, começou a ser esboçado a partir da década de 1960 devido a crises estruturais de ordem econômica, em especial, a do setor sucroalcooleiro.

Esse vale conhecido como Grota do Cigano não é diferente das periferias brasileiras, mas ela tem suas particularidades e, aqui vale lembrar, que se trata de um profundo, de uma Maceió de Dentro frente a uma Maceió de Fora (Almeida e Silva, 2015) onde as políticas públicas quase nunca chegam para a sua população e o estado só se faz presente pelas forças de segurança. Isso, particularmente, me ajuda a pensar sobre uma possível legitimação das mortes violentas.

A minha reflexão sempre me leva a pensar não apenas em uma única grota, mas como muitas e, muitas vezes, chego a usar o termo no plural: Grotas do Cigano. Não vejo apenas a grota, ou grotas, como um território geográfico, mas como um território político, de disputa de narrativas e de formas de sobrevivências. São muitas as histórias de pessoas que vieram para este espaço visto de forma cartesiana.

Certa feita, meu pai rememorou seu tempo e como chegou até a Grota do Cigano. Para ele, naquela época a violência era pouca e ele media pelo fato de ir trabalhar e conseguir ficar tranquilo deixando sua esposa e filhos sozinhos em casa.

  • Eu era solteiro. Na época tinha 25 anos; com 26 comecei a construir a minha casa no mesmo ano me casei e comecei a morar. Foi uma casa de taipa, de barro e madeira. Muito sacrifício… Fiz uma casinha separada. Saia para trabalhar e a mulher ficava sozinha com os filhos. Mas era pouca violência”, fala de Manoel Ferreira da Silva (Silva, 2023a).

Poucas são as memórias que tenho da minha infância. Chego a ter vaga lembrança sobre o barraquinho aos fundos do terreno que meu pai tinha adquirido junto ao seu Silva, ou melhor, José Sebastião da Silva. Considero importante destacar que toda a documentação de escrituração das terras da Grota do Cigano e de boa parte do Jacintinho é de propriedade do Lar São Domingos. Um recorte sobre esse tempo vivido por Manoel Ferreira e de parte da sua história de vida para chegar à grota pode ser conferido em Silva (2023a). Nele meu velho pai conta a sua trajetória até se fixar na grota e viver por quase 40 anos no local.

Mas, se tratando de violência e por ser a proposta que me propus não apenas para escrever este texto e sim o ensaio teórico, as vagas lembranças que agora me assaltam e ainda permanecem vivas em minha mente, por exemplo, é para um homicídio e a cena para mim são bem impactantes.

Ela ocorreu lá pelos inícios da década de 1990, não tenho fixo o ano específico, sei que tinha entre cinco e sete anos de idade, ou seja, isso foi por volta de 1992 e 1994.

Para ajudar no entendimento. A rua onde eu morava, a Amaro Feitosa, é uma das descidas da escadaria da Rua São Domingos e saí na Rua São Jorge, a principal avenida da grota. Ao sair na rua principal e pegar a direita tem acesso a ladeira em direção a feirinha, ou, a esquerda em direção ao Parque da Grota do Cigano. Em frente é o encontro de duas casas e por trás é um paredão com outras dezenas de moradias.

Do meu lado direito, sentido ladeira, tinha a venda do Baixinho, local onde costumava comprar o pão, a fubá, o ovo, o fígado alemão, o peixe salgado, como também a vela quando faltava energia, ou, para colocar para finados. Do outro lado, o esquerdo, a casa do seu Zé, filho de dona Luzia Santana.

Era finalzinho de tarde. Lembro que esse dia – entre 1992 e 1994 – era a primeira quarta-feira de algum mês. Meu pai havia acabado de chegar na casa de seu tio, Seu Jordão, na Rua São Jorge, com o seu carro de pipoca caseira – salgada e doce. Ele vendia as suas pipocas na missa do Santuário Virgem dos Pobres, que fica no bairro da Mangabeiras. Essa dinâmica ele fez durante quase toda a sua estadia na grota. Mensalmente sempre na primeira quarta-feira.

Eu havia acabado de chegar na esquina.

Um moleque, barrigudo, negro, sem camisa, descalço e usando apenas um calção que provavelmente tenha sido de time de futebol. Avistei meu pai do outro lado da rua, sentado no batente da escada que dá acesso à casa de seu Jordão, quando olho a direita para ver se vinha algum carro ou bicicleta para atravessar a Rua São Jorge, vejo um carro preto com os vidros escuros – hoje sei que é fumê – parar em frente a venda do ‘Baixinho’. Até então para mim, ocorria tudo na normalidade. Pela pista de paralelepípedo sempre trafegava carros, mas sempre ouvi dos mais velhos a lenda do carro preto, então, fiquei parado. Apenas olhava para ver se podia fazer a travessia.

  • Quem é o Baixinho? – Perguntou uma pessoa que desembarcou ao parar o veículo.

Era um homem. Ele desembarcou pela porta traseira, por trás do condutor. As vagas lembranças, se assim não tiver racionalmente interferindo, me faz recordar que havia algumas pessoas sentadas em umas mesas que ficavam no salão dentro do bar, um espaço de sete metros por dez. E aos fundos os produtos que eram expostos em prateleiras com um grande balcão que tinha dois vidros onde eram apresentados os pães. Comprei muitas vezes nessa venda; meu pai tinha até a notinha do prego que o proprietário anotava os valores das compras em um pequeno caderno.

  • Sou eu. Pois não? – Respondeu.

Não demorou, quase que instantâneo, foi o Baixinho responder, que desceu do veículo outros dois homens e efetuaram rajadas de bala.

  • Toma, esse é o seu. – disse um dos homens enquanto efetuava os disparos.

Eu estava parado na esquina e o meu reflexo foi se jogar ao solo e proteger a cabeça. Fiquei deitado no chão por alguns minutos, pois foram os minutos mais longos que até hoje passei de agonia.

A rua toda esvaziou. Lembro que ao olhar para a minha rua só tinha avistado a minha mãe que estava no portão de casa, sendo segurada por uma vizinha. Ao finalizar os disparos, apenas senti os seus braços e ouvi a sua voz que dizia que precisávamos sair dali. Só pude ouvir, juntamente com os disparos o corpo do Baixinho cair atrás do balcão e as pessoas que atiraram entrar no veículo e partirem descendo a grota, minha mãe me pegando pelos braços em direção a nossa casa e enquanto ela corria comigo em seus braços vi o carro subir em alta velocidade.

Na época não havia a lombada física – que hoje tem – em frente a venda do Baixinho. De certeza, no balão poucos metros depois do crime, uma rua usada para fazer a volta de veículos, o tal do carro preto fez a volta e subiu novamente a ladeira em direção a feirinha. Não soube mais notícias sobre o caso, porém foi o assunto mais comentado durante semanas e chegaram até cogitar que a vítima era um grande traficante, só que ninguém sabia da verdade.

3. Considerações

Por esses dias, retomei a leitura de Carolina Maria de Jesus (2014). As suas cartas me fizeram relembrar muito da rotina que tinha na Grota do Cigano. Mas, o que me fez ligação com a autora foi o amarelo notado pelo jornalista alagoano Audálio Dantas e descrito no prefácio. Segundo Dantas, a fome aos olhos de Carolina tinha a cor do amarelo.

E foi essa sutileza percebida por Dantas que sempre me encontrei e sempre tive em mente a cor vermelha como a cor que me lembrava a Grota do Cigano. Essa cor me faz lembrar o banho de sangue que desde o assassinato do Baixinho pude perceber escorrendo ladeira abaixo em direção ao mar. Dantas, me fez novamente perceber que sempre me lembro da grota com o vermelho do sangue das vítimas que foram tombadas e ao solo pintou a grota.

A reflexão continua…

3. Referências

ALMEIDA, L. S. SILVA, R. T. Encantos e desencantos do Boka. O Dia Alagoas, Maceió, 20 a 26 de dezembro 2015. Caderno Campus, p. 1-4.

FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Ed. Autores Associados: Ed. Cortês, 1987.

GLUCKMAN, M. Análise de uma situação social na Zululândia moderna. In: FELDMAN-BIANCO, B. (org). Antropologia das sociedades contemporâneas: métodos. 2ª Ed. Revista e ampliada. São Paulo: Editora Unesp, 2010. p. 237-364.

GEERTZ, C. A Interpretação da Cultura. Rio de Janeiro: Zahar Editoriais, 2008. p. 3-21 e 185-213.

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. 6ª ed. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2003. p. 215-236 e 237-265.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios, nº 32, p. 123-151, dez. 2016.

MONTERO, P. Magia e pensamento mágico. Série Princípios. São Paulo: Ática, 1986.

SILVA, R. T. As lembranças e histórias de vida dos moradores da grota. O Dia Alagoas, Maceió, 27 de agosto a 07 de setembro 2023. Caderno Campus, p. 1-4.

____. A vida noturna dos moradores de uma grota. O Dia Alagoas, Maceió, 21 a 27 de maio 2023. Caderno Campus, p. 1-4.

SPIVAK, G. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. (Prefácio, parte II, III e IV).  

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